Promotores dos EUA rastreiam contas da Universal
Promotores dos Estados Unidos estão rastreando dezenas de contas
bancárias naquele país ligadas ao bispo Edir Macedo que, segundo os
promotores de Justiça de São Paulo, foram usadas para adquirir a Rede
Record e empresas de comunicação do grupo com recursos desviados da
Igreja Universal. A informação é da Folha de S. Paulo.
O pedido brasileiro de colaboração, entregue ao governo
norte-americano na semana passada, diz que a igreja arrecadou no
Brasil dízimo junto aos fiéis e remeteu os recursos para os EUA por
meio de doleiros. Em seguida, o dinheiro teria sido repatriado e usado
para montar a rede de comunicação de Macedo.
Os alvos dos promotores nos EUA são Macedo, a Record, quatro empresas
"offshore" e dez pessoas, incluindo o ex-deputado federal e bispo João
Batista Ramos da Silva, que participaram da compra de veículos de
comunicação no Brasil.
Os promotores brasileiros pediram aos EUA que quebrem o sigilo e
bloqueiem os valores eventualmente encontrados em 15 contas bancárias
localizadas em Miami, Nova York e Jacksonville, incluindo as
registradas em nome do irmão de Edir, Celso Bezerra Macedo, e de uma
empresa "offshore" ligada a ele, a CEC Trading. Os EUA já descobriram
que essas 15 contas alimentaram dezenas de outras, que também estão
sendo rastreadas. A CEC recebeu US$ 1,2 milhão da Record, a emissora
disse se referir à compra de equipamentos.
O alvo dos promotores inclui as contas "Titia", "Pelican", "Florida" e
"Milano Finance", já investigadas pelas autoridades brasileiras por
serem geridas por doleiros brasileiros e abrigarem, nos EUA, milhões
de dólares cujo destino final não é inteiramente conhecido. Elas são
chamadas de "contas-ônibus", por receberem e enviarem recursos para
pessoas e empresas diferentes, muitas não relacionadas entre si. Só
uma das contas, "Florida", girou US$ 164 milhões (cerca de R$ 276
milhões). Segundo os promotores, essa conta é relacionada à empresa
Diskline Câmbio, sediada no Rio e hoje fechada. A agência fez
"inúmeras operações" supostamente ligadas à Universal, segundo os
promotores. O uso de doleiros nas remessas caracteriza crime tanto no
Brasil quanto nos EUA.
Os promotores querem a devassa em 17 anos de movimentações (desde 1º
de janeiro de 1992) das contas e a apreensão dos documentos a elas
relacionados, como faturas de cartões de crédito e cheques. Os
documentos servirão como eventual prova nas investigações realizadas
no Brasil.
Além do pedido de cooperação, os promotores enviaram aos EUA um
relatório que narra os supostos crimes que Edir Macedo teria cometido
naquele país. O relato, chamado tecnicamente de comunicação
espontânea, pode servir para os EUA iniciarem investigação própria
sobre Macedo. O Brasil também enviou cópia do depoimento do ex-pastor
da Universal em Nova Iorque, Gustavo Alves da Rocha. Ouvido pelos
promotores, Rocha teria confirmado que a Igreja usou recursos de fiéis
para financiar empresas do grupo. Também ouvido por promotores no dia
21 de outubro, o ex-pastor da igreja, Carlos Magno de Miranda, afirmou
que parte da compra da TV Record, avaliada pelos promotores em US$ 45
milhões, foi obtido "por meio de uma operação ilícita na Colômbia".
O secretário nacional de Justiça, Romeu Tuma Júnior, disse que o
pedido de cooperação internacional "é um trabalho corriqueiro, que a
secretaria tem enfatizado nos últimos anos". "A política do ministro
[Tarso Genro] avança na área da cooperação internacional."
Revista Consultor Jurídico, 14 de novembro de 2009